Longevidade: Berlim é acessível para quem tem mais de 60?

uma foto aérea da cidde de Berlim, na Alemanha
Longevidade: Berlim é acessível para quem tem mais de 60?

Série: conversas com quem entende de turismo para o público 60+

Segundo a Organização Mundial da Saúde, até 2030 uma em cada seis pessoas no mundo terá 60 anos ou mais, um salto de 1 bilhão em 2020 para 1,4 bilhão em uma década. É esse crescimento que me fez começar essa série: quero ir atrás, destino por destino e setor por setor do turismo, de quem já está se preparando de verdade para receber esse público que só aumenta em todo o mundo. Berlim, para quem tem mais de 60, abre a série.

Recentemente, entrei em contato com a visitBerlin, o órgão oficial de turismo da cidade, levantei o tema e consegui uma entrevista com Carlo Carbone, gerente de relações com mídia e mercado para América Latina, Benelux, França, Itália e Espanha. O assunto: o Reisen für Alle, o selo alemão de acessibilidade turística, e o que ele realmente muda para quem viaja depois dos 60.

O Reisen für Alle não é um programa pensado especificamente para esse público. Mas, como você vai ver, boa parte do que ele garante (informação clara antes de fechar a reserva, acesso sem degrau, banheiro adaptado) é exatamente o que facilita a vida de quem viaja mais velho, com ou sem alguma limitação física.

Mais posts sobre etarismo e turismo: afinal, quando é que a gente fica velho.

O que é o Reisen für Alle, na prática

O Reisen für Alle é um sistema padronizado em toda a Alemanha para identificar ofertas turísticas acessíveis. Hotéis, restaurantes e atrações são avaliados presencialmente, com critérios como largura de porta, tipo de acesso, condição dos caminhos e orientação no espaço. Depois, o resultado vira informação pública, disponível antes de você reservar.

Em Berlim, quem coordena o projeto é a própria visitBerlin. Segundo Carlo, o objetivo é dar segurança no planejamento: “o visitante deve saber, com a maior precisão possível, o que vai encontrar no “local”. E é isso que muda a experiência: você não chega no hotel para descobrir, na hora, que não vai conseguir utilizar o banheiro sozinha, por exemplo.

Uma mulher numa cafeteria charmosa à beira do Rio Spree, com a Catedral de Berlim ao fundo.
Uma mulher numa cafeteria charmosa à beira do Rio Spree, com a Catedral de Berlim ao fundo, acessivel por rampa e com totens digitais

Isso beneficia quem viaja depois dos 60 (70, 80, 90), mesmo não sendo feito para essa faixa etária?

Segundo Carlo, sim, e bastante. Informação sobre degrau, elevador, largura de porta e banheiro ajuda diretamente quem tem alguma limitação de mobilidade ou utiliza andador. Mas ele fez questão de marcar um ponto com o qual concordo demais: idade sozinha não diz muito sobre as necessidades de uma pessoa. Colocar todo viajante mais velho no mesmo grupo é um erro, e boa acessibilidade acaba beneficiando perfis bem diferentes, não só uma faixa etária.

Quantos viajantes mais velhos Berlim recebe hoje

Não existe, segundo a visitBerlin, um estudo específico cruzando idade com uso de infraestrutura acessível. Mas o Quality Monitor Berlin 2023/24 mostra que cerca de 9% dos turistas entrevistados na cidade tinham 60 anos ou mais, uma proporção um pouco maior entre os visitantes internacionais do que entre os próprios alemães.

A Alemanha está envelhecendo rápido, e isso pesa no turismo

Os números levantados, com base no Destatis (o instituto federal de estatística alemão), mostram um país em transformação:

  • No fim de 2025, a Alemanha tinha cerca de 83,5 milhões de habitantes.
  • Desse total, cerca de 25,9 milhões (31%) tinham 60 anos ou mais.
  • Aproximadamente 13,8 milhões tinham 70 anos ou mais, e quase 5,9 milhões, 80 anos ou mais.
  • A projeção do Destatis é que, já em 2035, uma em cada quatro pessoas no país terá 67 anos ou mais, reflexo do envelhecimento das gerações do baby boom.

No turismo especificamente, as estatísticas oficiais registraram cerca de 12,6 milhões de viajantes com 65 anos ou mais na Alemanha em 2025. Sobre quanto esse público gasta em viagem, Carlo preferiu não arriscar um número sem uma pesquisa específica e confiável por faixa etária, e eu prefiro essa honestidade a um dado chutado.

Como a Alemanha chama quem tem mais idade

Essa pergunta era mais curiosidade pessoal minha do que pauta de blog, mas achei importante trazer. Aqui no Brasil, utilizamos termos como “melhor idade”, “terceira idade”, “geração grisalha” ou simplesmente “idoso”, cada um carregando sua própria conotação. Foi com essa comparação em mente que perguntei ao Carlo se existia um termo parecido na Alemanha, tipo “Senioren” (a palavra alemã mais próxima do nosso “idoso”, mas sem a carga negativa que às vezes carrega aqui).

Segundo ele, não existe um termo único obrigatório. “Senioren”, ou “Seniorinnen und Senioren” (feminino e masculino no plural, forma que também vira genérica para todo mundo), é o mais comum e, em geral, neutro. Também se utiliza muito “ältere Menschen” (pessoas mais velhas) ou, de forma mais direta, “pessoas com 60 ou 65 anos ou mais”.

Carlo também comentou que, no marketing, aparecem termos como “Best Ager”, “Generation 60plus” ou “Silver Generation”, tentando passar uma imagem mais ativa do envelhecimento, embora arrisquem criar outro tipo de estereótipo. E, segundo ele, não existe um equivalente direto para o nosso “melhor idade”: a tradução literal soaria como jargão publicitário, não, como algo que as pessoas realmente dizem no dia a dia.

Existe etarismo no turismo alemão?

No Brasil, o termo mais utilizado é “etarismo”, também aparecem “ageísmo” e “idadismo”, e confesso que não gosto da maioria deles: parecem termos de manual acadêmico, longe de como a gente realmente fala no dia a dia. Foi por isso que quis saber se a Alemanha tinha o mesmo problema de nomenclatura.

Segundo Carlo, o termo mais utilizado por lá é “Altersdiskriminierung” (discriminação por idade), com “Ageismus” aparecendo mais em contextos acadêmicos. Um estudo de 2025 da Agência Federal Antidiscriminação da Alemanha mostrou que 45% dos entrevistados já vivenciaram alguma forma de discriminação por idade, principalmente no mercado de trabalho, em serviços e seguros.

No turismo, nosso entrevistado aponta que o problema aparece de um jeito mais sutil: quando se assume, sem verificar, que todo viajante mais velho é menos móvel ou menos familiarizado com tecnologia, ou quando um serviço de reserva vira 100% digital e exclui quem não utiliza aplicativo. Carlo não conhece nenhuma pesquisa alemã específica sobre etarismo no turismo. Mas o padrão que ele descreve me parece o mesmo que eu já vejo aqui no Brasil.

O que fazer em Berlim para pessoas com mais de 60 anos

Aqui entra a parte prática, e essa levo comigo para o próximo roteiro que fizer da cidade. A Ilha dos Museus (Museumsinsel) tem seus museus abertos acessíveis para cadeiras de rodas, alguns com visitas guiadas adaptadas. O Humboldt Forum também é acessível nas áreas de exposição.

Olivia passeando por Berlim
Passeando por Berlim, na Alemanha, uma das cidades mais interessantes do mundo

A recomendação pessoal de Carlo, e a que mais me interessou, foram os Gärten der Welt, em Berlin-Marzahn: um parque grande com jardins inspirados em diferentes regiões do mundo, incluindo trechos asiáticos e europeus. Foi o primeiro parque permanente da Alemanha, na categoria jardins e parques, a receber a certificação Reisen für Alle. Tem banheiro acessível e cadeira de rodas para empréstimo gratuito no local.

O conselho geral dele, que também é o meu, sempre que monto roteiro para quem viaja depois dos 60: não lotar o dia. Um museu de manhã, uma pausa boa num café, um tempo ao ar livre à tarde. Berlim tem oferta cultural de sobra, mas o ritmo é seu, não da cidade.

O que fica dessa conversa

O que mais me chamou atenção nessa entrevista não foi nenhum dado isolado, foi a ideia de que acessibilidade bem feita não separa público por idade, ela só tira barreira do caminho de quem precisa, seja por mobilidade reduzida, seja por qualquer outro motivo. E isso serve para qualquer destino, não só para Berlim.

Se você já foi para Berlim depois dos 60, ou está pensando em ir, me conta nos comentários ou manda mensagem: quero saber se a experiência bateu com o que a visitBerlin descreve.

Perguntas frequentes

O que é o Reisen für Alle?
É o sistema alemão de certificação de acessibilidade turística, que avalia hotéis, restaurantes e atrações com critérios padronizados e publica o resultado para o viajante consultar antes de reservar.

Berlim é uma boa cidade para quem tem mais de 60?
Segundo a visitBerlin, sim: cerca de 9% dos turistas da cidade já têm 60 anos ou mais, e boa parte dos principais pontos culturais, como a Ilha dos Museus e o Humboldt Forum, é acessível para cadeira de rodas.

Qual lugar em Berlim tem certificação de acessibilidade para parques?
Os Gärten der Welt, em Berlin-Marzahn, foram o primeiro parque permanente da Alemanha a receber a certificação Reisen für Alle, com banheiro acessível e cadeira de rodas para empréstimo gratuito.

Conheça o site: Visit Berlin.

Fontes: Organização Mundial da Saúde (fact sheet Ageing and Health), visitBerlin (Reisen für Alle, Quality Monitor Berlin 2023/24, atrações acessíveis), Destatis (Departamento Federal de Estatística da Alemanha), Agência Federal Antidiscriminação da Alemanha. Entrevista concedida por Carlo Carbone, da visitBerlin, para o blog Olivia Garimpando Por Aí.

Casal utilizando a acessibilidade Estruturada na Ilha dos Museus, em Berlim, na Alemanha.
Acessibilidade Estruturada na Ilha dos Museus, em Berlim, na Alemanha

Compartilhe esse conteúdo:

Facebook
LinkedIn
Pinterest
WhatsApp

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *