Zaandam, vizinha de Amsterdã, vale a pena conhecer?

Olivia em Zaadam, na Holanda, pertinho de Amsterdã
Zaandam, na Holanda, pertinho de Amsterdã, merece sua visita

Em 2010, eu me perguntei: Zaandam vale a pena? Isso foi quando procurava uma hospedagem mais barata perto de Amsterdã. A cidade entrou no meu roteiro por um motivo bem prático: dormir ali custava menos do que ficar na capital, e o trem direto até Amsterdam Centraal fazia o resto. Durante o dia, eu visitava Amsterdã; à noite, voltava para Zaandam, que na época parecia só uma base conveniente.

Um ano depois, voltei e tive a sensação de que a cidade havia mudado. Eu ainda não sabia explicar direito o que, mas havia uma construção impossível de ignorar em frente à estação: o Inntel Hotels, com fachada que parece uma pilha de casas tradicionais holandesas, inaugurado em 2010. O hotel, projetado pelo arquiteto Wilfried van Winden, reúne quase 70 casinhas tradicionais do estilo Zaan, empilhadas em quatro tons de verde, ao longo de 12 andares e 160 quartos. Em 2011, já era uma das imagens mais marcantes do lugar.

Mais de quinze anos depois, ainda não voltei a Zaandam. Estou planejando essa viagem e, antes de embarcar, resolvi investigar a lembrança que ficou comigo. Descobri que a impressão de 2011 estava certa: Zaandam passava realmente por uma transformação. O hotel era só a parte mais visível de um projeto urbano bem maior.

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A transformação urbana de Zaandam

O nome do projeto era Inverdan. A partir do início dos anos 2000, o centro de Zaandam passou por uma grande reurbanização concebida pelo arquiteto holandês Sjoerd Soeters, que tentou renovar a região central sem apagar a identidade arquitetônica do Zaan, incorporando referências às tradicionais casas de madeira em edifícios contemporâneos. O resultado aparece no conjunto de construções ao redor da estação, nos espaços comerciais e residenciais, na nova prefeitura e no Inntel Hotels.

Fachada do Hote Inntel em Zaandam
Fachada do Hotel Inntel em Zaandam

A prefeitura de Zaanstad registra o Inverdan como um dos grandes projetos responsáveis pela transformação do centro. O novo edifício da prefeitura, por exemplo, entrou em funcionamento em novembro de 2011, justamente no ano em que voltei à cidade. De repente, minha memória ficou mais clara: eu não estava só percebendo uma mudança na paisagem, estava vendo uma cidade em obra.

Onde se hospedar em Zanndam.

O canal que voltou a atravessar a cidade

O Inverdan também recuperou um elemento que desapareceu do centro: o Gedempte Gracht, canal aterrado em 1858, voltou a ter água. A reabertura devolveu o canal ao coração de Zaandam e criou um eixo de circulação entre lojas, restaurantes e prédios novos, onde antes havia só uma via de passagem.

Esse contraste entre a memória de uma paisagem histórica e uma cidade contemporânea tentando recuperar essa memória sem virar cenário artificial é uma das razões pelas quais acho que Zaandam vale a pena para quem gosta de destino que conta história pela arquitetura.

Pedro, o Grande, e a casa mais antiga da cidade

A pesquisa também me levou a uma história que eu desconhecia. Zaandam guarda uma relação antiga com a Rússia por causa do Czaar Peterhuisje, casa de madeira construída em 1632, uma das mais antigas do país. Em 1697, o czar Pedro, o Grande, passou oito dias hospedado ali durante sua viagem aos Países Baixos, estudando construção naval sob um nome falso.

Ele chegou disfarçado sob o nome falso de Peter Mikhailov, querendo estudar construção naval de incógnito nos estaleiros da região. Não deu muito certo: os moradores logo descobriram quem ele era, e a curiosidade das multidões o perseguiu tanto que ele preferiu seguir para os estaleiros de Amsterdã, onde conseguia trabalhar com mais discrição. Apesar da estadia curta, a casa virou um pequeno santuário de curiosidades: visitantes ilustres, de czares a Napoleão, entalharam o próprio nome no vidro das janelas ao longo dos séculos seguintes, e o acervo guarda até uma carta de 1897 cobrando do czar Nicolau II um imposto de terra atrasado de 5 centavos.

A casa é hoje um dos monumentos mais conhecidos de Zaandam, aberta como museu na Krimp 23. Para mim, essa descoberta mudou a escala da cidade: o lugar que parecia só um ponto prático no mapa passou a reunir episódios da história russa, holandesa e da navegação europeia.

Monet também passou por Zaandam

Outra descoberta que não esperava foi a ligação da cidade com Claude Monet. O pintor francês passou quatro meses em Zaandam, em 1871, e produziu 25 pinturas nesse período e nove esboços inspirados na paisagem do Zaan. O MonetAtelier, na Westzijde, no centro, mostra reproduções dessas obras e conta essa história.

É curioso pensar que, quando estive ali em 2010 e 2011, caminhei por uma paisagem que tinha inspirado Monet mais de um século antes, sem fazer ideia disso.

E existe a Zaanse Schans

É impossível falar de uma viagem a Zaandam sem falar da Zaanse Schans, mas fica raso dizer só “moinhos e casas de madeira”: cada moinho ali tem nome, função e uma história própria.

O De Kat, moinho de tintas, teve sua primeira licença concedida em 1646, pegou fogo em 1782 e foi reconstruído logo depois. Hoje é o único moinho de vento do mundo que ainda produz pigmento de tinta pelo método tradicional, e recebe cerca de 130 mil visitantes por ano, sendo o mais visitado da Holanda. O De Zoeker, moinho de óleo que já também processou tinta e cacau ao longo dos séculos, remonta ao início do século 17. O Het Jonge Schaap, serraria, é uma réplica reconstruída entre 2005 e 2007 a partir de um modelo original de 1680. E o De Bonte Hen, moinho de óleo desde 1693, sobreviveu a vários raios que destruíram outros moinhos da região ao longo da história.

Esse número não é força de expressão: no auge da Era de Ouro holandesa, a região do Zaan chegou a ter cerca de 600 moinhos de vento funcionando ao mesmo tempo, o que a torna uma das primeiras áreas industriais da Europa Ocidental. Os moinhos que sobrevivem na Zaanse Schans hoje são o que restou desse período, remontados ali a partir de 1961.

Ela também não nasceu como a vemos hoje. Entre 1961 e 1974, casas, celeiros e moinhos de diferentes pontos da região do Zaan foram transferidos para ali, para preservar parte desse patrimônio. O resultado é um dos lugares mais visitados dos Países Baixos: só em 2024, recebeu mais de 2,6 milhões de visitas, um número que muda a forma de olhar para o lugar, porque não é só paisagem bonita para fotografar, é patrimônio lidando todo dia com milhões de pessoas.

Zaandam como um todo também não é um destino esquecido: em 2024, o centro da cidade recebeu cerca de 153 mil visitantes por semana, e a visitação turística cresceu 20% no ano, num período em que quase metade das cidades holandesas pesquisadas no mesmo levantamento teve queda. Só que o perfil de quem visita é bem específico: 45% das visitas duram entre 2 e 4 horas, e apenas 2% dos visitantes ficam mais de um dia. A maioria vai para fazer compras ou comer fora, não necessariamente atrás de história. Fiquei lá as duas vezes, e parece que, nesse sentido, sempre fui exceção.

Fachada de um edifício em estilo tradicional holandês, em Zaandam
Fachada de um edifício em estilo tradicional holandês, em Zaandam

O que comer por lá

Zaandam é, sem exagero, um dos berços do chocolate holandês. A Verkade, marca centenária de chocolate, biscoito e bolacha, foi fundada na cidade em 1886 por Ericus Verkade, e ainda hoje é um nome conhecido em qualquer supermercado da Holanda. Dentro do Zaans Museum, na Zaanse Schans, o espaço chamado Verkade Experience recria a fábrica do início do século 20, com as máquinas originais de produção ainda em funcionamento, e permite criar e embalar seu próprio chocolate, uma experiência que mistura história industrial da região com um souvenir comestível.

Ainda dentro da Zaanse Schans, o De Kraai é conhecido pelas panquecas holandesas doces e salgadas, e o D’Swarte Walvis fica às margens do rio, com cozinha inspirada na tradição holandesa. Na Catharina Hoeve, fazenda histórica do vilarejo, dá pra acompanhar demonstração de produção de queijo ao vivo.

Já no centro de Zaandam, a região do Gedempte Gracht concentra a maior parte dos bares e restaurantes da cidade, com opções mais informais e internacionais. Ainda não tenho um lugar específico pra recomendar ali, então essa é uma das coisas que pretendo descobrir de verdade quando voltar.

Zaandam é uma cidade para conhecer sem pressa?

A cidade é plana, o centro é compacto, e a estação fica junto da área central, o que facilita combinar transporte público e caminhada. Na Zaanse Schans, a experiência muda um pouco: há caminho de pedra e ponte de madeira, trechos que solicitam mais atenção de quem tem alguma dificuldade de locomoção. Não encontrei certificação oficial de acessibilidade específica para Zaandam, e prefiro registrar essa lacuna a transformar impressão em informação.

Aos 60 anos, presto atenção a coisas que talvez não fizessem parte do meu planejamento em 2010. Ainda não sinto nenhum tipo de restrição, mas considero crucial avaliar e comunicar aos meus leitores.

fachada da Estação de trem em Amsterdã, conhecida como Amsterdaam Centraal, pertinho de Zaandam
Estação de trem em Amsterdã, conhecida como Amsterdam Centraal, pertinho de Zaandam

Informações práticas

Zaandam fica a cerca de 9 km de Amsterdam Centraal, com trem direto de 10 a 13 minutos. Para Zaanse Schans, a estação é Zaandijk-Zaanse Schans, cerca de 20 minutos de trem e mais 15 a 20 minutos a pé até o vilarejo. O Czaar Peterhuisje fica na Krimp 23, e o MonetAtelier, na Westzijde 14g, os dois no centro de Zaandam. Horários e preços mudam, então vale checar os sites oficiais antes de ir.

os moinhos de Zaanse Schans é uma área da região do Zaan
Zaanse Schans é uma área da região do Zaan, município de Zaandam, com seus moinhos

Zaandam e Zaanse Schans são a mesma coisa?

Não. Zaandam é a cidade. A Zaanse Schans é uma área da região do Zaan, no município de Zaandam, conhecida pelo conjunto de moinhos, casas históricas, museus e oficinas.

Em 2010, Zaandam foi para mim uma escolha econômica. Em 2011, voltei e percebi uma cidade diferente, sem saber explicar por quê. Agora, em 2026, pesquisando antes de voltar, descobri que aquela mudança tinha nome, projeto, arquiteto e uma história bem maior do que eu imaginava, e também lugares que não estavam no meu roteiro naquela época: a casa onde dormiu o czar Pedro, a passagem de Monet, o canal que voltou a atravessar a cidade.

Ainda não sei como vou encontrar Zaandam quando voltar. Talvez algumas coisas estejam como na minha memória, talvez outras sejam completamente diferentes. É justamente isso que quero descobrir, porque voltar a um lugar nunca é simplesmente repetir uma viagem.

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