Mulheres Lideram o Turismo no Brasil — E o Nordeste Virou o Destino Favorito

Amanhecer com os seus barquinhos na Praia de Cumuruxatiba no sul da Bahia, nordeste do Brasil
Praia de Cumuruxatiba na Bahia, nordeste do Brasil

Durante muito tempo, viajar para fora do país parecia quase uma etapa obrigatória da vida adulta. Como se a viagem “de verdade” precisasse envolver imigração, conexão internacional, moeda estrangeira e alguma foto clássica em uma rua europeia para finalmente parecer especial. Enquanto isso, conhecer o próprio Brasil acabava ficando naquele lugar estranho do “depois eu faço”. Só que alguma coisa mudou nos últimos anos. E mudou rápido. O crescimento do turismo liderado por mulheres no Brasil e especialmente no Nordeste ajuda a explicar essa transformação: cada vez mais mulheres estão escolhendo viagens nacionais mais leves, práticas e emocionalmente confortáveis.

Hoje, as mulheres já representam 53% do público que viaja a lazer no Brasil, segundo levantamento do Ministério do Turismo em parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV). Mais do que isso: entre as brasileiras que pretendem viajar, 62,4% escolhem destinos no próprio país. E existe um detalhe importante nessa mudança: o Nordeste aparece como a região mais desejada entre as mulheres que viajam pelo Brasil.

Quando li esses números, eles não me pareceram exatamente surpreendentes. Na verdade, pareceram quase inevitáveis. Porque a forma como as mulheres viajam mudou completamente depois da pandemia. E talvez o Nordeste, especialmente o turismo feminino no Nordeste, tenha sido a região brasileira que melhor entendeu essa transformação.

Durante muito tempo, viajar estava muito ligado à ideia de status. Existia quase uma obrigação silenciosa de transformar férias em algo grandioso, internacional e visualmente impressionante. Só que, de alguns anos para cá, especialmente após 2020, muita gente começou a perceber uma coisa simples: às vezes a viagem inteira estava ficando mais cansativa do que prazerosa.

Viajar para fora ficou mais caro, mais burocrático e muito mais desgastante do que costumava ser. O dólar disparou. As passagens internacionais ficaram absurdamente altas. Vieram guerras afetando rotas aéreas, inflação global, cidades superlotadas na Europa e uma sensação meio estranha de que o turismo internacional começou a exigir energia demais para entregar descanso de menos.

Penso que muitas mulheres perceberam isso antes do mercado perceber. Porque conforto operacional pesa muito mais do que a indústria do turismo costumava admitir. E talvez esteja aí uma das principais mudanças do turismo feminino atual. Hoje, a pergunta deixou de ser apenas “qual destino impressiona mais?”. Em muitos casos, ela virou “qual viagem realmente vai me fazer bem?” Parece uma diferença pequena, mas muda absolutamente tudo.

uma jangada em Jericoacoara no Ceará, nordeste do Brasil
Conheça Jericoacoara no Ceará, nordeste do Brasil

A pandemia também alterou profundamente a relação das mulheres com descanso, tempo e autonomia. Viajar deixou de ser apenas lazer e passou a ocupar um espaço emocional muito maior. Para muita gente, virou autocuidado. Pausa mental. Recuperação de burnout. Sensação de liberdade. Um jeito de respirar um pouco fora da rotina. Isso ajuda a explicar por que tantas mulheres começaram a olhar para o próprio Brasil de outro jeito.

Não precisar lidar com chip internacional, imigração, adaptação cultural ou orçamento explodindo por causa do euro. Tudo parece mais simples, mais fluido e fácil de aproveitar de verdade. E, conversando com leitoras, percebo que essa sensação se repete o tempo inteiro.

Guia para mulheres que viajam sozinhas

Talvez o grande ponto seja justamente esse: muita mulher não está escolhendo o Brasil porque “não conseguiu viajar para fora”. E também não significa que nos próximos anos não possa fazer uma viagem internacional, e está tudo bem. Está escolhendo porque, atualmente, a experiência nacional faz mais sentido emocional, financeiramente e até fisicamente. E o Nordeste acabou ocupando exatamente esse espaço.

Quando os dados demonstram a região liderando a preferência feminina, muita gente resume isso a “praia bonita”. Mas a verdade é que existe algo muito maior acontecendo ali. O Nordeste reúne uma combinação muito específica de fatores que hoje fazem enorme diferença para o turismo feminino: boa malha aérea, hospedagens para diferentes orçamentos, destinos já consolidados, clima estável praticamente o ano inteiro, gastronomia forte, viagens relativamente simples de organizar e uma sensação muito rápida de descanso.

Você entra em um voo de poucas horas e desembarca em outro ritmo de vida. Isso pesa muito depois dos últimos anos. Além disso, o Nordeste funciona bem em praticamente qualquer época. Em muitos destinos brasileiros, errar a temporada pode comprometer completamente a experiência. Já no Nordeste, mesmo fora da alta temporada, normalmente ainda existe praia boa, restaurante funcionando, passeio disponível e clima favorável.

Existe uma previsibilidade confortável nisso. E conforto virou um valor enorme para muita mulher viajando sozinha. Segundo os dados do Ministério do Turismo, entre as mulheres que escolhem viagens nacionais, 73,7% fazem deslocamentos interestaduais. Bahia, Pernambuco e Ceará aparecem entre os estados mais procurados.

Não por acaso, esses estados também investiram muito nos últimos anos em ampliação da malha aérea, qualificação da rede hoteleira, turismo gastronômico, experiências culturais e fortalecimento da presença digital dos destinos. O Nordeste deixou de ser apenas “destino de praia”. Hoje ele ocupa um espaço de experiência completa.

Letreiro na praia de Aracaju no Sergipe
Aracaju em Sergipe, nordeste do Brasil

E talvez exista também uma questão emocional que nem sempre aparece nas pesquisas: acolhimento. Muitas mulheres fala sobre o Nordeste quase como um lugar onde o corpo desacelera mais rápido. Como se existisse menos pressão para performar uma viagem perfeita. Porque esse é outro ponto interessante da mudança no turismo feminino: viajar deixou de ser uma espécie de performance.

Em algum momento, especialmente nas redes sociais, pareceu que toda viagem precisava virar conteúdo impecável. Roteiro perfeito. Restaurante certo. Foto certa. Cidade da moda. Quase uma obrigação estética. Só que muita gente cansou disso também. Hoje existe uma valorização muito maior de experiências que parecem reais. Lugares que permitem presença, descanso e espontaneidade. E isso conecta muito com o crescimento das mulheres viajando sozinhas.

Segundo o mesmo levantamento do MTur, 17,8% das mulheres pretendem viajar solo, contra 11,8% dos homens. Na prática, a intenção feminina de fazer viagens sozinhas é cerca de 50% maior. Isso é uma transformação cultural enorme.

Durante décadas, mulheres foram ensinadas a esperar companhia para viver certas experiências. Viajar sozinha parecia arriscado, irresponsável ou até egoísta. Só que isso mudou. Hoje existe uma geração inteira de mulheres que prefere não adiar planos esperando alguém topar ir junto. Mulheres que viajam porque querem viver a experiência agora, não “quando der”. E isso mudou completamente o mercado turístico.

Hotéis, pousadas, operadoras e até companhias aéreas começaram a perceber que segurança, acolhimento, praticidade e flexibilidade passaram a influenciar muito mais as decisões femininas. O próprio Ministério do Turismo publicou materiais específicos voltados para mulheres viajando sozinhas, reconhecendo oficialmente o crescimento desse perfil. E talvez o mais interessante seja perceber que isso ainda parece só estar começando.

Conheça o meu guia para mulheres que viajam sozinhas.

As redes sociais também tiveram um papel enorme nessa mudança. Durante muitos anos, o imaginário aspiracional brasileiro estava quase todo voltado para o exterior. Só que Instagram, TikTok e criadores de conteúdo começaram a mostrar um Brasil que muita gente simplesmente não conhecia direito. Caraíva. São Miguel dos Milagres. Pipa. Itacaré. Lençóis Maranhenses. Morro de São Paulo. Fernando de Noronha.

Vista dos 
Lençóis Maranhenses no Maranhão, nordeste do Brasil
Lençóis Maranhenses no Maranhão, nordeste do Brasil

O Brasil começou a ser redescoberto visualmente pelos próprios brasileiros. Agora, muitos destinos que alguns ”gringos” já conhecem muito bem, viraram o queridinho também dos brasileiros (brasileiras). E isso alterou muito a percepção sobre turismo nacional, especialmente entre mulheres que passaram a buscar viagens mais ligadas à sensação da experiência do que necessariamente à ideia de status.

Talvez seja justamente por isso que o Nordeste tenha crescido tanto no turismo feminino recente. Porque ele entrega uma coisa que muita mulher parece procurar hoje: beleza sem excesso de complicação. Existe uma frase que ficou na minha cabeça enquanto eu pesquisava esse tema: o Nordeste virou o novo “luxo possível” da mulher brasileira. Não no sentido de luxo barato. Mas no sentido de uma experiência que consegue entregar descanso, prazer, estética, sensação de recompensa e leveza sem exigir o desgaste gigantesco que muitas viagens internacionais passaram a exigir.

E entendo que isso explica muito do momento atual. Viajar pelo Brasil deixou de ser “plano B” e virou a escolha principal. E as mulheres lideram essa mudança, essa transformação.

Igreja da praça de 
Arraial d'Ajuda na Bahia, nordeste do Brasil
Arraial d’Ajuda na Bahia, nordeste do Brasil

FAQ

As mulheres são maioria no turismo brasileiro?

Sim. Segundo levantamento do Ministério do Turismo em parceria com a Fundação Getulio Vargas (FGV), as mulheres representam 53% do público que viaja a lazer no Brasil.

Qual região do Brasil as mulheres mais escolhem para viajar?

O Nordeste lidera a preferência regional entre mulheres que viajam pelo Brasil, com destaque para Bahia, Pernambuco e Ceará.

Quantas mulheres brasileiras pretendem viajar sozinhas?

Segundo dados do MTur, 17,8% das mulheres pretendem viajar sozinhas, contra 11,8% dos homens.

Por que o turismo feminino cresceu tanto nos últimos anos?

Entre os principais fatores estão mudanças de comportamento pós-pandemia, maior autonomia feminina, crescimento das viagens solo, busca por experiências emocionais e aumento das viagens domésticas.

O aumento das passagens internacionais influenciou essa mudança?

Sim. O aumento do dólar, da inflação global e dos custos do setor aéreo tornou muitas viagens internacionais mais cansativas e menos acessíveis, fortalecendo o turismo nacional.

Por que o Nordeste atrai tantas mulheres viajantes?

O Nordeste combina boa infraestrutura, clima favorável, facilidade logística, forte apelo emocional e destinos já consolidados para mulheres viajando sozinhas ou em grupo.

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